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Reféns do crack

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Reféns do crack

Fonte: Folha de S.Paulo

11/05/2014 – Domingo

A Folha acompanhou três beneficiários do programa da Prefeitura de SP para a cracolândia; hoje, apenas um deles diminuiu o consumo da droga

ARETHA YARAK – DE SÃO PAULO

Há quatro meses, Narciso Rodrigues morava em um barraco e desembolsava R$ 5 para tomar banho. O estômago recebia o pouco que o dinheiro conseguia pagar. Diariamente, consumia dez pedras de crack ou mais.

Hoje, Narciso, 46, está mudando de vida. Ele divide o quarto com cinco pessoas em um hotel na região central de São Paulo conhecida como cracolândia. Levanta cedo para fiscalizar os colegas que trabalham com varrição. Cadeirante, à tarde ele sobe sozinho uma escada se arrastando pelo corrimão para trabalhar em um pensionato –tem movimentos limitados nas pernas.

“Ainda fumo, mas não passa de 12 pedras [de crack] por semana”, diz. No ano passado, ele chegava a fumar mais de dez pedras por dia.

A Folha acompanhou por uma semana a rotina de Narciso em janeiro, quando ele se adaptava ao então recém-lançado programa Braços Abertos, concebido pela gestão Fernando Haddad (PT).

O projeto busca recuperar usuários de crack oferecendo tratamento, alimentação, moradia e emprego. Por dia de trabalho, recebem R$ 15.

Segundo a prefeitura, dos 429 dependentes inscritos, apenas 31 desistiram. Outros 111 continuam cadastrados –recebendo moradia e alimentação–, mas não trabalham.

Além de Narciso, a reportagem acompanhou também as usuárias Silvana Paiva, 44, e Dayane Auxiliadora, 25.

Ao contrário dele, elas não conseguiram continuar trabalhando e voltaram a frequentar a concentração de usuários no meio da rua –atualmente, localizada na alameda Dino Bueno.

“Pedi demissão. Ah… voltei a usar crack. Tô [sic] com depressão”, diz Dayane.

A Folha apurou que o número de usuários que parou de trabalhar é maior do que informa oficialmente a prefeitura. Mais da metade dos que ingressaram no programa e reduziram o consumo nas primeiras semanas deixou de trabalhar e voltou a usar crack como antes.

O consumo no meio da rua, que tinha diminuído em janeiro quando o projeto teve início, voltou a crescer e já volta a impedir a passagem de carros na região.

“A violência com os moradores da região é alarmante”, diz Fábio Fortes, presidente do Conseg (conselho de segurança) da Santa Cecília.

“O programa dá uma chance única, mas é difícil parar se você dorme no mesmo quarto que pessoas que fumam”, diz um usuário que não quis se identificar. Os beneficiários ficam quartos de hotel alugados pela prefeitura.

Usuários apontam que a apresentação de atestados médicos injustificados –até mesmo falsos– se proliferou. Com o documento, o beneficiário garante o pagamento pelo dia de trabalho.

A organização estuda agora uma maneira de não depender mais do documento.

VITRINE

Ana Cristina, a usuária que Haddad recrutou para trabalhar como copeira na prefeitura, deixou a tarefa depois de cerca de um mês.

“Um dia vi televisões com imagens gravadas da cracolândia. Tinha até meu marido. Não voltei mais”, conta.

Ana não conseguiu largar o crack, usa o uniforme eventualmente e deveria trabalhar na tenda do projeto ajudando no banho, mas não tem ido.

Maria Cristiane Mendes Fante, 37, que aparece no comercial da prefeitura, está firme no trabalho de varrição.

“Só não vou quando tenho fisioterapia. Quero fazer um curso e virar gari, usar o uniforme verde deles”, conta.

Ela deslocou o fêmur e o osso da cintura no ano passado e manca de uma perna. Ela diz que não usa mais crack. “Trabalho com dor, o segredo é dar valor.”

REFERÊNCIA

Ajudar usuários a encontrar uma moradia estável e evitar situações que levem à recaída são chaves para sair da dependência, diz Shaun Hopkins, um dos responsáveis pelo Safe Crack Use (uso seguro de crack).

O programa, de Toronto, promove a chamada redução de danos –distribuição de material usado no consumo de drogas, como cachimbos, para evitar efeitos como transmissão de doenças de um usuário para outro.

Em 2006, quando foi implementado, o projeto distribuiu somente 3.559 itens. Apenas um ano depois foram dados 94.292 itens –um aumento de 25 vezes.

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