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Manicômio de Barbacena foi palco de maus-tratos, torturas e mortes

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Manicômio de Barbacena foi palco de maus-tratos, torturas e mortes

Fonte: G1 Globo News

Edição do dia 28/10/2013

28/10/2013 06h35 – Atualizado em 28/10/2013 10h20

Internos morriam de frio, fome e sessões intermináveis de eletrochoque.
Em livro, jornalista compara situação em Minas Gerais ao Holocausto.

Dominada pela família Andrada até hoje, Barbacena tinha a ambição de ser a capital de Minas Gerais. O desejo foi frustrado e a cidade teve que se contentar com um manicômio, criado em 1903. Em vez de ditar os rumos da política local, como pretendia, ficaria marcada pelo que a jornalista mineira Daniela Arbex chamou de ‘Holocausto Brasileiro’, termo que dá título ao seu livro sobre o hospício, o maior do Brasil. “Os pacientes vieram para cá em trens de carga e, quando chegavam, já eram desumanizados. Passavam por ‘banho de desinfecção’, tinham a cabeça raspada, eram uniformizados. Foi uma tragédia. Claro que não na proporção dos judeus, mas foi uma tragédia singular na nossa história”, compara Daniela.

Como a maioria das pessoas ia para Barbacena de trem, surgiu no estado a expressão ‘trem de doido’. O termo, inclusivo, foi mencionado pelo escritor Guimarães Rosa no conto ‘Soroco, sua mãe, sua filha’. Embora os trens tenham mudado e hoje só transportem mercadorias, os vestígios daquelas viagens ainda permanecem na cidade. Apesar de os pacientes encaminhados para o manicômio serem considerados loucos, apenas 30% deles tinham diagnóstico de doença mental. A jornalista conta que homossexuais, militantes políticos e meninas que haviam perdido a virgindade antes do casamento eram mandados para lá.

A causa de muitas das 60 mil mortes que ocorreram no local era o tratamento com choques elétricos, ministrados sem nenhuma prescrição médica. “Foi usado como forma de contenção e intimidação. Hoje ainda se prescreve eletrochoque para determinados tipos de doença, mas o Conselho Federal de Medicina é claro quando diz que precisa ter anestesia, a pessoa precisa tomar remédios para minimizar os impactos. Acho que aí caracteriza claramente como tortura, porque as pessoas recebiam eletrochoque a seco”, conta Daniela.

Cultura higienista no Brasil

Segundo ela, havia uma cultura higienista de limpeza social, o que impediu que – mesmo com a frequente entrada da imprensa no manicômio – este tipo de tratamento fosse abandonado. A jornalista destaca que o problema ainda não foi extinto. “Se a gente pensar que esse ano, em 2013, a gente ainda tem hospitais psiquiátricos sendo fechados porque funcionam como minicolônias, vai ver que o holocausto ainda não acabou”, afirma.

Desde o princípio do século, o Brasil passou por uma reforma no tratamento de pacientes com transtornos mentais. Ninguém viveu mais amplamente toda essa transformação do que Elzinha. Sobrevivente do manicômio de Barbacena, ela mora hoje em um núcleo terapêutico residencial com mais sete mulheres com níveis de dificuldades diferentes. Ela foi internada quando menina em uma instituição para menores na cidade de Oliveira. Adulta, foi transferida para Barbacena.

Não sei porque me internaram criança. Eu não fiz nada com Deus, não fiz nada com eles.”
Elzinha, ex-interna do manicômio de Barbacena

Elzinha conta que nunca ficou trancada em uma cela ou recebeu choque, mas viu outros pacientes serem castigados. No tempo em que ficou internada, jamais recebeu a visita de parentes. “Queria que minha família viesse aqui só para me ver, para ver que eu estou boa. Não é para eu ir embora com eles, não. Não sei porque me internaram criança. Eu não fiz nada com Deus, não fiz nada com eles”, conta.

A autora de ‘Holocausto Brasileiro’ aponta que Barbacena tem atualmente 28 residências terapêuticas em funcionamento. “É um modelo que às vezes engatinha em algumas cidades brasileiras, e Barbacena está tentando correr atrás, através da implantação de serviços que funcionam bem e integram essas pessoas na sociedade”, avalia.

Nem tudo, porém, foi resolvido com o chamado movimento antimanicomial e com as mudanças no sistema de atendimento psiquiátrico. Os núcleos terapêuticos são caros e os 62 remanescentes que foram para clínicas particulares conveniadas com o governo estão sob a vigilância do Ministério Público. “Temos ainda hoje uma vertente de colocação do portador do transtorno mental em uma condição de sub-humanidade. Ainda existe um descompasso do reconhecimento mínimo de direitos da dignidade humana em determinados locais”, afirma a promotora Giovana Araújo.

O ‘trem de doido’ não existe mais em Minas Gerais, exceto com o sentido atribuído pela linguagem popular, mas nem todas as promessas de reformulação do modelo de atenção à saúde mental foram cumpridas. Hoje, o próprio hospital de Barbacena está mudado. Antes mesmo da reforma, pessoas como Nise da Silveira romperam com o choque elétrico e estimularam a terapia pela arte. O sofrimento ainda existe, mas o Brasil deu alguns passos para relegar a peças de museu os instrumentos de tortura do passado.

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